Amarras – uma história de chá, com muito açúcar
De cores suaves e leve material, a echarpe se contorcia sinuosamente ao sabor dos olhares que senhoras, moças e mulheres lançavam sobre ela. Adornando um manequim, o majestoso pedaço de pano pairava acima da reluzente quantia de trezentos reais.
Mulheres bem vestidas, mal vestidas, altas, baixas, gordas, magras, pálidas, coradas, sorrindo, reclamando, paravam em frente à vitrine e eram enfeitiçadas pelo brilho e charme do sublime tecido.
Sejamos sinceros, tais atitudes femininas não eram por completo exageradas, afinal, não se tratava de um mero lencinho e sim, de uma echarpe imponente, elegante e, porque não dizer, certas vezes até arrogante. Porém, certamente, era de uma postura advinda da realeza.
Certo dia, finalmente, ela ganhou o mundo, saiu da loja, soberba como sempre, envolvendo, enlaçando, encobrindo nuca e pescoço de uma importante senhora. O domínio de uma sobre a outra era tão grande, que elas não se largavam, não se separavam e a echarpe envolvia e enrolava cada vez mais sua senhora.
Numa manhã de inverno, cansada de envolver somente a fala, o leve recorte de fazenda deixou-se levar pelo vento frio, caindo aos pés de uma jovem moça. Não é uma senhora, porém tem lá seu charme. A sorteada abaixou-se lentamente, segurou e afagou o objeto tão cobiçado. Delicadamente, envolveu sua cabeça com o precioso tecido, seguindo seu caminho.
Geniosa, após alguns meses, a echarpe se cansou de dominar somente o pensamento, deixando-se cair vagarosa e graciosamente do alto do apartamento em que reinava. Estatelada no chão, foi pega por uma rapariga que a amarrou ao redor da cintura.
Os dias se passaram e a mulher se deu conta de que o precioso pano havia sumido. Sentiu, então, um frio no colo, um vazio, uma certa solidão, desprotegida.
A vida se acalmou, todas esqueceram que, certa vez, o forte tecido encobriu-lhes os corpos. E um dia, a estrela reapareceu. E lá estva ela, a echarpe, numa casa abandonada, prendendo firmemente, porém com elegância, os pulsos de um criminoso, enquanto os policiais apontavam-lhe as armas.


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