Chá ou Café?

Chá. Chá preto, chá verde, chá mate, chá de lírio, chá de cogumelo.... para reunir os amigos, para conversar, para viajar... Histórias mais filosóficas, mais sensoriais, mais espirituais, mais... ........................................... Café. Café curto, café longo, café com um pouquinho de leite. Pra acordar, pra deixar ligado, pra tomar rapidinho no balcão. Histórias do dia a dia, teorias de 2 segundos, pirações mais terrenas...

quinta-feira, julho 27, 2006

O Outro Lado da Rua – uma história de chá

Fazia sol do outro lado da rua e ele continuava ali, preso, no frio, respirando o ar congelante, no meio fio da vida, andando numa linha reta, paralela à escuridão.

O barulho das máquinas o ensurdecia. A luz verde o deixava cego. Os sons dissonantes, marteladas ininterruptas, uma gota de água pingava incessantemente em sua cabeça. Ele ia ficando louco. E perdido. E louco e cego e mudo às palavras bonitas da vida, e paraplégico para os campos de flores, e aleijado para os abraços carinhosos, e solitário.

Estava trancado em uma caixa fria, na contramão das emoções. A ele restava apenas a infeliz tarefa de observar o mundo, apenas olhar, nunca tocar, através das pequenas gretinhas da armação de papelão.

Trancado em uma cela, encarcerado em seus medos, asfixiado por suas esperanças, ele via o dia passar. E o dia passava e chegava outro igualmente cinza e outro um pouco mais negro e nada mais fazia diferença.

O frio púrpura mantinha seus dedos sempre no mesmo ato incessante. Batia na mesma tecla sem parar e o barulho que fazia, só o deixava mais infeliz.

Olhava para o outro lado, perto, porém inalcançável. Um céu azul, um carpete verde, o barulho da água correndo, alguém que canta. Mas isso era apenas ilusão. Estava preso, entocado, guardado, encurralado em um corredor cinza, apenas a espera da morte, de algo que o levasse, que trouxesse a felicidade e colocasse um ponto final em seu parágrafo.

De todas as tristezas, ele tinha certeza apenas de uma coisa. O Inferno era frio, e não prendia ninguém. Estava ali porque queria, preso por algemas de medo, amarrado com cordas de insegurança e sua falta de confiança pesava como bolas de aço.

Andava torto e manco pelos cantos escuros, esperando encontrar um lugar para se esconder. Pensava forte e pedia e, um dia, caiu tão fundo que não podia mais subir. Mas isso não o incomodava. Porque agora, o ar que respirava era claro, era leve, era fino e seu corpo agora era quente e seus cabelos eram soltos e estava coberto por um cobertor verde e macio e uma luz forte o encorajava e aquecia, enquanto uma voz doce o embalava num sono de paz, alegria e enfim, eterno.

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