Quando em São Paulo... - uma história de café
Nasci em São Paulo, cresci em São Paulo, sempre morei em São Paulo. E quando eu digo São Paulo, eu quero dizer Sãopaulocapital, a megalópole maluca, o pólo econômico brasileiro e etc e etc. Como toda boa paulistana, fui criada sabendo que a cidade não pára, não dorme, não descansa, que o tempo é um bem intangível, precioso e inalcançável e, principalmente, fui ensinada que correr é preciso.
Mas me comportando como uma típica nativa do que um dia foi a terra da garoa, eu nunca me preocupei muito com isso, simplesmente absorvi, assimilei e adotei como modo de vida. Realmente, sinceramente, nunca achei que tivesse algo de errado no modo com que eu e meus conterrâneos vivemos. Em viagens para o interior sempre ouvia coisas do tipo “nossa, mas São Paulo deve ser uma loucura, eu nunca conseguiria viver num lugar desses”, no que eu nunca dei muita importância, ou melhor, nem entendia como alguém podia achar a vida em São Paulo algo impossível de se imaginar, ou ainda, viver.
Bem, como o destino sempre arranja um jeito de nos convencer do contrário, quer estejamos dispostos ou não, um dia desses, estava eu andando na Avenida Paulista, ou melhor, correndo desesperada, como se fossem meus últimos minutos na Terra, quando me perguntei “mas porque eu estou correndo assim?”. Ora, porque eu estou na Avenida Paulista e todo paulistano que se preze está sempre correndo na Avenida Paulista, só os turistas passeiam, o paulistanodeverdade corre, apressado, não olha para os prédios, não percebe a existência do MASP e só não é atropelado nos faróis, porque está acondicionado a andar somente quando a manada anda, ou seja, quando o sinaleiro permite. Mas o problema é que eu estava correndo na Paulista as exatas 9 horas da noite e eu não estava indo para um jantar de negócios, ou para uma visita com hora marcada, eu estava indo do cinema até um barzinho encontrar um grupo de amigos. Eu estava tendo um momento de lazer!!!! Lazer!!! O que era para ser um instante prazeroso, uma caminhada agradável do cinema na rua Augusta, até o bar na altura do MASP, observando as pessoas, os arranha-céus, as luzes da cidade, não passava de mais uma maratona habitual na minha insignificante existência. Foi aí que eu percebi que alguma coisa só podia estar errada. Porque correr durante o dia, atrás de todos os compromissos que você tem que atender e contra o trânsito, é algo normal, ou melhor, aceitável na nossa distorcida concepção do mundo moderno. Agora, correr durante as horas em que você deveria descansar, beira o cúmulo do absurdo, se já não é o próprio.
Porém, ao que tudo parece, trata-se apenas de mais um dos hábitos do homo sapiens oriundo da capital paulista. Ele acorda meio que no susto, toma banho correndo, se arruma correndo, agarra algo para comer no meio do caminho, (sem parar de correr, é claro), e se atira dentro do carro para ficar parado no trânsito até conseguir chegar ao trabalho. Chegando lá, faz tudo o que tem que fazer correndo, sai para almoçar correndo, (afinal, pode ser que sobre tempo para passar no banco, no correio, ou dar uma corridinha na academia). Aí ele volta para o trabalho, corre até o fim do dia, fazendo de tudo para sair o mais cedo possível e usufruir de algum tempo para ele mesmo. Então, ele se joga novamente no carro e vai cumprir seus compromissos de pai, companheiro, amigo ou voluntário. Entretanto, ele ainda tem que travar uma das mais importantes batalhas do dia, o assustador, irredutível, invencível, congestionamento metropolitano. Cada momento parado, cada segundo perdido é motivo de uma culpa profunda por estar desperdiçando o bem mais precioso: tempo, de modo absolutamente improdutivo. É por isso que o paulistano come no carro, fala ao telefone no carro, agenda reuniões no carro, faz teleconferências do carro, lê jornal no carro, conversa com os filhos no carro, pede em casamento no carro, pede divórcio no carro. Porque, simplesmente, esse será o único, e enfatizo aqui, O ÚNICO momento no dia em que ele estará parado “fazendo nada”. E é imperativo que esse tempo seja ocupado com algo minimamente importante no seu dia, para “adiantar”, para, quem sabe, no fim do dia, ter tempo livre para se divertir. E quando, por alguma artimanha do destino, ele consegue, quase que por malabarismo, dispor de algum “tempo livre”, acha logo um jeito de ocupá-lo com algo que nunca tem tempo para fazer, como ir ao médico, ao dentista, ao cabeleireiro, visitar uma amiga que deu à luz, rever algum parente que mora do outro lado da cidade, (mesmo que isto signifique passar mais tempo no trânsito do que com os entes amados), ou então encontrar alguns amigos que estão esperando uma visita há cerca de 3 anos, ou jantar fora, ir ao cinema, a um bar, necessariamente nessa ordem para ocupar cada segundo disponível do precioso tempo livre.
E quando o paulistano sai de férias? Como num plano de guerra, antes de sair de casa, ele tem a viagem inteira planejada, cada segundo aproveitado, do aeroporto ao hotel, do hotel ao sightseeing, do sightseeing ao museu, do museu ao parque, do parque ao restaurante, do restaurante ao bar, do bar ao hotel e tudo de novo. Ele divide o mapa da cidade a ser visitada em setores, traça os caminhos mais curtos, calcula o tempo a ser gasto em cada atração com a precisão de um cirurgião ou piloto de caça. Quando retorna do descanso, obviamente esgotado, tem a sensação de que necessita de outras férias, só para se recuperar da correria. Mas não adianta, nem com todas as férias do mundo o paulistano seria capaz de se entregar pura e simplesmente à preguiça de uma rede, ou à vista do alto de uma montanha, sem celular, internet, rádio ou televisão, apenas observando o cair da tarde e o conseqüente e inevitável pôr do sol, sem se preocupar com a cotação do dólar no fim do dia, ou a agenda para amanhã.
No fim das contas, acho que eu nunca saberia viver de outro jeito. Já me acostumei a correr de lugar a lugar, organizar meus finais de semana como se fosse uma perseguição ao elo perdido, preenchendo cada lacuna do meu tempo com algo “útil”. Um filme que eu ainda não vi, uma exposição que ainda não visitei, um restaurante que ainda não provei, uma peça que ainda não assisti. E o mais curioso é que, por mais que eu me organize, essas atividades nunca cessam de aparecer e nunca me resta tempo livre para simplesmente fazer nada, sem me sentir culpada, sem me sentir a última das paulistanas, porque não estou utilizando meu tempo de forma proveitosa e louvável.


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