Chá ou Café?

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terça-feira, setembro 12, 2006

Apagaram a linha do horizonte – uma história de café, cinza

Vivendo em São Paulo, eu me acostumei a nunca ver o horizonte. Sabe aquela linha reta que separa o céu da terra? Essa mesmo. Do mesmo modo que eu me acostumei a não ver as estrelas, a não olhar muito para o céu, raramente ver a lua e até esquecer que existe alguma coisa entre o asfalto e o trigésimo quarto andar.

Outro dia, reparei como me faz falta não olhar para o horizonte. Estava sentada numa praça que fica num ponto alto da cidade e felizmente, tem vista para uma área até que bem verde e pasmem, tem até uma seção onde existe horizonte. Ele mesmo. Uma pequena faixa verde que se encontra com uma possível massa azul. Possível porque, na ocasião citada, a tal área azul estava meio acinzentada, como sempre. Mas a gente se acostuma com tudo e perceber que o que eu estava vendo não era uma amontoado de prédios, e sim o encontro do azul com o verde, me deixou incrivelmente feliz e me lembrou que eu não estou acostumada a ver o horizonte do modo como ele deveria ser. Igual naqueles desenhos, ou quadros, ou final feliz de conto de fadas.

Quando vou para a praia, o meu passatempo preferido é ficar observando as diversas linhas do horizonte. O azul do céu com o azul do mar, o verde de uma ilha com o azul do céu e por aí vai. Aqui, a única coisa que eu vejo é um empilhamento de edifícios, parecendo uma plantação de caixas de fósforos, com um manto cinza ao fundo. Tem lá sua beleza, uma poética urbana que eu consigo apreciar na maioria das vezes. Mas acho que os olhos humanos ainda merecem o direito de se deixarem perder na linha do horizonte de vez em quando. É relaxante, acalma e ainda é grátis. Isso se você mora em algum lugar em que ainda exista alguma linha. No meu caso, tenho que rodar um tanto até encontrar algo minimamente parecido, mas sei lá, vai ver que isso só aumenta o valor da coisa.

Deveriam fazer alguma lei: todo paulistano tem o direito a uma vista com pelo menos 5 metros de horizonte da janela de seu quarto. Acho que é o mínimo que a gente deveria exigir pela quantidade de impostos que paga. Já criaram imposto até para o lixo, porque é que eu não posso ter direito a horizonte? E quando eu digo horizonte, estou me referindo àqueles tradicionais, nada de antenas ou helipontos ou coberturas. Apenas céu e montanha, céu e árvore, no máximo.

Do jeito que a coisa anda, logo nem esses raros encontros de céu e terra vão ser visíveis na cidade de São Paulo. Apenas concreto, cimento, vigas, antenas, janelas e uma porção de gente, mobília e poeira empilhados num desenho geométrico de proporções inimagináveis e um futurismo que apenas aquelas histórias escabrosas de ficção cientifica ousaram projetar.

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Menina, vc sabe que, outro dia, peguei o avião e, lá de cima, vi um novo horizonte. Ele era cinza embaixo e azul em cima. Era a camada de poluição na qual estamos mergulhados. Juro, fiquei passada. Mas a gente vive num lugar que tem um sistema de transporte coletivo horroroso e que considera "minus" quem utiliza. Chique é andar nos metros de Londres e Paris.

Alias, tomei a liberdade de inserir um link para um texto da Marina Colasanti:

http://www.tdnet.com.br/lerbr/mc_1cronica.html

14 setembro, 2006 12:31  
Anonymous Anônimo disse...

nossa, muito bom texto dela. pena que eh realmente o que acontece....

14 setembro, 2006 13:17  

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