Chá ou Café?

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quarta-feira, setembro 06, 2006

O mal da dor alheia – uma história de chá, dos outros

Sabe quando o carro passa num buraco e alguém diz “ai”, como se tivesse sentido a dor do amortecedor, roda ou pára-choque? Então, eu sou uma dessas pessoas. Eu sinto a dor das coisas. Se eu estou lavando a louça e uma xícara cai, por exemplo, eu imediatamente solto um gemido de dor, como se eu é que tivesse escorregado.

É estranho isso. Não sei quando e como comecei com essa mania, mas agora é simplesmente impossível parar. Na mesma linha, quando eu bato num poste, eu peço desculpas, como se tivesse realmente esbarrado em alguém. Eu saio machucada da história, o poste não está nem aí e eu ainda peço desculpas. Ou quando eu chuto o pé da mesa e também peço perdão.

Isso pode ser reflexo de muita preocupação, ou então muita educação, ou os dois juntos, ou nenhum deles. “Desculpa” e “ai” são praticamente atos reflexos já incorporados à minha personalidade. “Desculpa” está associado com qualquer esbarrão, tropeção ou acidente que me tome de surpresa. Já “ai” está associado com toda coisa e/ou pessoa que caia, tropece, bata ou esteja em risco de sofrer qualquer dor perto de mim.

Não que isso seja um grande problema. Não me atrapalha, não me constrange, nem muda a rotina do meu dia. Simplesmente é um tanto quanto exótico. Eu sei que, por aí, existem dezenas, centenas, quiçá milhares de pessoas sofrendo da mesma “patologia”. De repente, variando apenas na manifestação de seus sintomas. Eu, várias vezes, já pedi desculpas para o meu próprio reflexo, quando andando distraidamente em algum lugar, esbarrava em um espelho.

Vai ver que nós (sim, não posso estar só nessa), os acometidos pelo mal da dor alheia, deveríamos nos unir. Montar um grupo de apoio, compartilhar nossas experiências e talvez, até contar com a supervisão de algum profissional para nos orientar, ou analisar o caso, tentando traçar algum padrão ou comportamento que explique de onde vem essa mania, no mínimo, peculiar.

Se bem que, manias todo mundo tem. A minha é só mais uma no meio de uma multidão. De repente, eu nem deveria dar tanta importância ao fato, mas é minha e eu dou sim. Na realidade, nem faço questão de eliminá-la, já faz parte da minha personalidade e, as vezes, faz até alguém rir. É que sei lá, considerando que não é muito normal emitir uma expressão de dor quando o agredido é um objeto inanimado, ou pedir desculpas para algo tão inanimado quanto o objeto anteriormente citado, achei que o assunto era minimamente interessante para ser explorado. Vai saber quantas pessoas por aí não fazem a mesma coisa e se sentiam únicas ou diferentes demais até agora e, finalmente, puderam se identificar com alguém. Será que eu salvei alguma vida? Ou será que eu simplesmente estou indo longe demais em um assunto que não dava assunto nem para meio parágrafo?

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