Personalidades que saem com água – uma história de chá, aguado
Nesses tempos modernos em que tudo é reciclável e mesmo assim a produção de lixo nunca esteve tão alta, eu me deparei com uma nova descoberta: a personalidade que sai com água.
Indo da simplicidade de uma maquiagem à complexidade de um candidato político, as personalidades facilmente laváveis são, hoje em dia, grande sucesso na sociedade. Atualmente, as coisas ao nosso redor se transformam muito rápido para que a mudança interior causada pela assimilação da novidade perdure por muito tempo. Assim, nada mais prático do que o uso das personalidades solúveis em água.
Vai a uma festa em que precisa parecer chata/metida/nojenta? Com o uso da maquiagem correta, dá para empinar o nariz, aumentar os lábios, esconder olheiras, rugas e sei lá mais o quê. Obviamente, não se trata de uma personalidade muito complexa, talvez apenas uma máscara, mas enquanto vestindo tal armadura, é dever interpretar o personagem com todos os seus gestos, manias e palavreado deveras peculiar.
De outro lado, temos uma infinidade de políticos que literalmente lavam suas mãos e a personalidade também quando assumem o poder. No horário eleitoral, dizem uma coisa e na hora H, fazem outra. É como conhecer duas pessoas diferentes usando o mesmo corpo, ou será esse um novo caso de esquizofrenia? Uma manifestação moderna da doença frente a velocidade desse novo mundo. A esquizofrenia a base de água. Vou sugerir a idéia a algum pesquisador.
E tem também aquela de quando você sai e conhece alguém super legal. Vocês passam a noite inteira juntos, inesquecível. No dia seguinte, você liga (se é que alguém ainda liga no dia seguinte) para ele/a. O ser humano mal se lembra quem você é. “Mas a gente não ia passar o fim de semana na sua casa de campo?”, “Você falou que eu era a sua alma gêmea!”. No que você ouve do outro lado “desculpe, estava bêbado/a demais, não lembro de nada disso, nem sei se te conheço. Sabe como é que é, vodka dá amnésia...”. Nessas horas, só muita água mesmo para curar a ressaca e eliminar qualquer resquício daquela personalidade adorável que você achou ter conhecido.
Teve uma época em que a moda eram projetos/produtos personalizados. Recentemente, descobri que esse termo está obsoleto, agora diz-se customizado. Alguém me explica a diferença dos dois, por favor? Dizem que o customizado é mais pessoal ainda do que o personalizado, ou seja, totalmente, absolutamente, inegavelmente exclusivo daquela pessoa. Lá em casa, eu tenho uma mesa que é personalizada. Invenção minha é claro. É uma mesa de lata, dessas de boteco. Ela é branca, mas eu coloquei umas canetas coloridas de quadro branco em cima para promover a interação. A galera chega, desenha, pira na mesa e ela fica lá, única, personalizada. Depois eu lavo com água e ela perde a personalidade. Assim, simples.
E como as coisas estão mudando cada vez mais rápido, fico me perguntando, o que virá depois das personalidades que saem com água? O que pode ser mais ágil e eficaz do que isso? Se bem que, outra tendência é a reciclagem de valores ou coisas que foram muito populares no passado e agora, com roupagem nova, parecem absolutamente atuais. No fim das contas, acho que o bom mesmo é seguir vivendo segundo o que vovó já dizia, Lavou, tá novo.


0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial