Espectatriz – uma história de chá, à ribalta
Há vezes em que prefiro ser espectadora da vida, do que sua atriz principal. Me perder observando tudo, do alto da arquibancada ou através do anonimato de uma frestinha, como o resto de milhares, bilhares de personagens, nessa história, se comportam.
É como se eu não estivesse ali, como se eu não fizesse parte, como se ninguém pudesse ver. É como se eu fosse invisível, como se tudo não passasse de um filme e pior, (ou melhor, depende do ponto de vista), um filme onde eu já, mais ou menos, conheço o final.
A parte mais estranha de tudo isso é que, nessas ocasiões, eu realmente sinto como se não fizesse parte daquilo, como se não estivesse vivendo a minha própria comédia de erros, enquanto alguém mais astuto observa e ri também da minha cara. E enquanto observo o desenrolar do drama dos outros, é como se tudo não passasse de um teatro de marionetes, onde as falas são esperadas, os gestos manipulados e as reações exageradas.
Tem dias em que eu me canso de ser espectadora e me volto de volta a meu próprio papel, mas não posso evitar de notar a importância de todos os figurantes ao meu redor, como se cada um deles estivesse ali, não por acaso, mas por uma razão maior, dando mais coerência e verossimilhança à história.
Por vezes me pergunto quem é o autor de tal espetáculo. Talvez seja eu, talvez seja alguém que me observa, quiçá os inofensivos figurantes, ou talvez estejamos todos escrevendo tudo ao mesmo tempo, escrevendo e apagando, apagando e escrevendo num repensar sem fim.
As vezes tenho a impressão de que a narrativa se rearranja como um fluxo de consciência, sem muito sentido, sem muito controle, sem qualquer explicação. Ai de mim se tento pôr sentido nas coisas e acabo confundindo tudo ainda mais.
Outras vezes é como um drama de costumes muito bem arquitetado, personagens extremamente trabalhados, passados ricos em demasia, chavões desperdiçados, passos marcados, valsas repetidas.
Muitas vezes tenho que parar tudo. Mandar fechar as cortinas, chamar o intervalo. Que venham as dançarinas de cancã, que venham os comediantes baratos, que venham os micos de circo. Uma distração qualquer, uma ausência de pretensão, um esvaziar da platéia, uma confusão de fumaça, uma não importância de falas.
E entre um ato e outro, eu me divirto entre espectadora e “espectada”, entre autora e atriz, entre clown e colombina, esperando o dia em que enfim, as luzes se voltarão para a platéia e conhecerei a peça que estava sendo encenada.


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