Maneirismos sociais e a sua paciência – uma história de café, muito obrigada
Decidindo viver em sociedade, antes de mais nada, o ser humano deve se adequar numa série de comportamentos esperados visando aperfeiçoar seu traquejo social. Ou seja, desde pequeno, somos ensinados a sorrir quando apertam nossas bochechas, ou dizem que crescemos. A dar “Bom dia” quando é dia, “Boa tarde” quando é tarde, “Boa noite” quando é noite. Com o tempo, você acaba desenvolvendo suas próprias técnicas. Ao invés de cumprimentar, usa apenas um aceno de cabeça, ou um levantar de mão, ou alguma palavrinha que ninguém entende.
Com sorte, sua educação lhe garante o mínimo de vocabulário com função fática, sua vergonha lhe garante o mínimo de cara de pau para ser simpático com estranhos não importando a situação, e seu humor não é destrutivo o suficiente para te isolar do resto do mundo permanentemente. Parabéns, você não é um ermitão e como recompensa, você ganhou uma maravilhosa estadia, até que provem o contrário, na vida em sociedade. Amigos, familiares, festas, viagens, trabalho. Tudo o que você sempre quis, agora pode e será seu.
Aí, num belo dia de chuva, você acorda e vai tomar banho. O chuveiro inexplicavelmente pifa no meio da operação e você tem que terminar de se assear com água gelada. Sai na rua e o vento vira seu guarda chuva, seu primeiro passo vai direto ao encontro de uma magnífica poça d’água. Para sua sorte, nada mais de muito ruim acontece em sua jornada e, finalmente, você chega ao trabalho. Sentindo-se miserável, molhado e levemente desarrumado, você cumprimenta o porteiro do prédio com um “bom dia” bem introspectivo, um grunhido. No elevador, encontra 3 ou 4 colegas do andar debaixo, todos conversando animadamente àquela hora da manha, com aquela chuva, tendo ainda que trabalhar. Indignado com tamanha ousadia, você nem cumprimenta ninguém. Finge que não está ali e internamente, está torcendo para que todos tenham um dia terrível e finalmente eliminem aqueles sorrisos asquerosos de suas faces.
Vencida a etapa do elevador, você finalmente chega onde deveria chegar, trabalho. Dá bom dia para a secretária, dessa vez tenta ser um pouco mais convincente, já que mais tarde pode precisar de algum favor da dedicada funcionária. Em vão, só consegue emitir um sonido desafinado. Desistindo de persistir com essas bobagens sociais, se dirige apressadamente até sua mesa, desejando com toda a força de seu ser não encontrar mais ninguém no meio do caminho. Para seu azar, naturalmente, um grupo conversa de maneira empolgada à sua esquerda e todos eles parecem incrivelmente felizes em te ver. No melhor dos humores, cada um deles lhe deseja sinceramente um bom dia enquanto você quer que eles apenas desapareçam após uma morte lenta e dolorosa. Seu “oi, como vai?” soa muito mais como “vá à merda e me deixe em paz” e o sorriso em seus lábios deixa vazar um estranho barulho de dentes rangendo.
Com sorte, você enfim chega até seu aconchegante e reconfortante cantinho de laboro. Durante todo o dia, atende o telefone com uma falsa calma, saúda co-trabalhadores com uma falsa alegria, sorri para todos que passam por sua baia com uma falsa benevolência e faz tudo que tem que ser feito com uma falsa boa vontade. Na hora do almoço, deseja “bom apetite” a todos, afinal, não importa em que estado se encontre o seu humor, você deve manter a vida em sociedade possível e aceitável, já que um dia, você pode precisar muito de tudo isso que está à sua volta.
O dia termina relativamente bem. Você deseja “boa noite” e “bom descanso” a todos e vai embora. Chega em casa e evita trocar palavras com qualquer familiar, afinal, eles são sua família, eles te amam incondicionalmente, você não precisa manter joguinhos sociais com eles para ser aceito, eles vão entender. Buscando um pouco de paz e privacidade de uma vez por todas no seu dia, faz um enorme prato de comida e senta-se sozinho e com as luzes apagadas em frente a TV. O noticiário, que alegria. A vida de tanta gente aqui e em todo mundo é tão pior que a sua, você realmente só tem o que agradecer e pensar que é bom. Sentindo-se aliviado, você começa a pensar com satisfação que o dia seguinte sim será um ótimo dia. Até que o inevitável acontece. O âncora do jornal lhe deseja “Boa Noite” e você num incontrolável acesso de fúria grita com toda a força dos seus pulmões para a TV “vai se fuder seu filha da puta miserável sem nada melhor para fazer”.


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