Mamãe quero ser voyeur – uma historia de café, observado
Nunca o voyeurismo esteve tão em alta na humanidade. Provavelmente isso deve estar associado com o fato de não se ter mais tempo pra cuidar das nossas vidas e em contrapartida resolver cuidar da vida dos outros. Mas por que não cuidar do que é seu no pouco tempo que resta? Porque não é tão divertido e, principalmente, não é tão fácil.
Você passa o dia inteiro trabalhando em frente ao computador. Não tem tempo de ir ao banco, ao cabeleireiro, ao mercado, à biblioteca, tomar café com um amigo ou almoçar com a mãe. O que você faz então? Usa aquele seu tempo ocioso no trabalho para saber o que as outras pessoas, tão miseráveis quanto você, estão fazendo. Fuça o orkut, checa o fotolog, flickr ou outro site de hospedagem de fotos para saber se os outros estão tendo tempo de viajar, tirar férias, fazer baladas, conhecer gente nova. Não satisfeito, você acessa o blog para saber o que seus amigos têm feito, o que está passando na cabeça deles, se algum pretende se matar ou largar tudo e ir vender coco na praia.
Quando todo o tipo de informação relevante sobre as pessoas que você conhece pessoalmente se esgota, você parte então para a vida das pessoas públicas. Checa os canais de fofoca da internet. Lê todo o tipo de notícia pastelão, vê quem são as celebridades grávidas da vez, quem se separou, quem se juntou, quem apareceu sem calcinha, quem deixou os peitos vazarem do tomara que caia, e principalmente, as gafes e barracos do momento.
Findo o dia de trabalho e com ele todas as novidades sobre a vida dos outros que você absorveu na internet, é hora de voltar para casa e cuidar da sua própria vida. Ou não. Você chega em casa e vai ver tv. Primeiro o noticiário para se atualizar e em seguida algum programa para se divertir.
Big Brother e aquelas pessoas que têm que suportar umas as outras, confinadas naquela casa. Ou então você pode ver o que acontece quando duas famílias trocam suas esposas. Você pode ainda observar o sofrimento de mães que têm que lidar com crianças insuportavelmente sapecas, enquanto agradece por sua vida não ser tão difícil assim. Depois, pode acompanhar a viagem de um grupo de amigos pelo mundo, ou uma competição. Pode ver as pessoas fazendo tatuagens, ali na tela da sua televisão. Caso você prefira, pode acompanhar de perto as intimidades e dia a dia de uma celebridade, ou pode ver como é trabalhar nesse, ou naquele restaurante, ou como é ser uma modelo, cantor, estilista de sucesso.
Enfim, a TV lhe proporciona a incrível oportunidade de viver a vida de quem você quiser, da pessoa mais miserável à mais feliz, desde que isso lhe traga satisfação pela tristeza ou alegria do outro e, primordialmente, por você não ter que ocupar esse precioso tempo se preocupando com a sua vida. O que fazer daqui para frente, o que fazer no futuro e é claro, o que fazer agora.
Felizes eram aqueles que se contentavam somente em ficar debruçados em uma janela observando o movimento passar e comentando com a vizinha do lado. Ao menos ainda se saía de casa, conversava-se com o vizinho e havia movimento real para se observar.
Hoje tudo chega até você sem que você se dê conta, perceba, ou tenha tempo para decidir se é bom ou ruim. Simplesmente é mais um hábito adquirido para a distração fácil e despreocupação com o que fazer no dia de amanhã e com a própria vida. Afinal, é muito mais fácil ficar vivendo a vida dos outros, que já está pronta e decidida, às vezes até com a ajuda de um diretor, do que se chatear e gastar toneladas de energia procurando fazer algo com a própria rotina.


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