Quem não tem colírio usa peneira – uma história de café, bem escuro
Tirei esse post para reclamar da hipocrisia humana, ou seria hipocrisia brasileira? Bem, para começar, nada melhor do que o assunto do momento, tudo bem que já esfriou, mas nunca é tarde.
Assim, parafraseando algo que li outro dia e que resume bem a situação: um avião derrapa, não freia, bate, explode, mata 200 pessoas e o culpado é o dono do puteiro? Realmente na putaria que está o espaço aéreo brasileiro, nada mais natural do que culpar o cafetão.
Mas o que realmente me atraiu nos últimos dias foi algo que li num site de notícias sobre arte e cultura. Estão culpando a Chilli Beans, sim, aquela fabricante de óculos escuros que conquistou o mercado nacional nos últimos anos, de incentivar, intermediar e distribuir “drogas sintéticas”.
Você tem uma marca. Para que ela venda mais, é necessário que a ela seja agregado (odeio essa palavra, mas vai lá) algo impalpável, um sonho, um desejo, uma ideologia. Tem marca que se associa com a novela das oito, outras com roupas de surf, algumas com música, tem uma que usou até cowboys. O importante é nunca estar sozinho, sempre pertencer a algum ou vários nichos da sociedade.
Pois bem, percebendo sua grande aceitação em um tipo de consumidor, a Chilli Beans, entre outras coisas, resolveu colocar sua marca como apoio em eventos de música eletrônica e até vender convites de festas em suas lojas. Entretanto, música eletrônica já estava atrelada a outra coisa no consciente coletivo: “drogas sintéticas”. Deste modo, nada mais natural do que fazer a associação “lógica”: música eletrônica está para drogas, assim como a Chilli Beans está. Ou seja, a empresa distribui ecstasy nas festas que apóia. É tão óbvio, como é que eu nunca tinha percebido isso antes? Foi preciso que um dos gênios investigativos da nossa polícia fizesse tal descoberta e abrisse um inquérito contra a fábrica de óculos para eu me desse conta.
Simplesmente um absurdo. Para o bem da sociedade, é necessário proibir essas aglomerações recreativas junenis com música alta repetitiva e consumo indevido de drogas. Entretanto como não há como comprovadamente culpar ninguém, há que se achar um culpado, qualquer que seja. E como foi feito com o dono do puteiro, no caso do acidente da TAM, resolveram culpar o dono da loja de óculos escuros. Claro.
Mas pensando bem, isso faz todo o sentido, porque nessa mania brasileira de tapar o sol com a peneira na hora de achar um culpado, nada como pôr a culpa nos óculos escuros.


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