Chá ou Café?

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terça-feira, junho 10, 2008

Pobre de marré marré – uma história de chá, de meia

Desde que o mundo é mundo, existem os dominadores e os dominados. De lá para cá pouca coisa de grande importância mudou, apenas meros detalhes, alguns trâmites burocráticos, uns tantos títulos de nobreza e algumas nomenclaturas. O mais importante, o forte cordão que une uma classe à outra, ainda continua intacto: o medo aliado a uma enorme esperança de um dia conseguir a liberdade.

Mas se hoje somos todos homens livres, cidadãos de bem e pagadores de impostos, porque ainda temos esperança de um dia conseguirmos a liberdade? Porque o que temos hoje é a falsa liberdade, assim como os antigos conservavam a falsa escravidão.

A relação entre dominadores e dominados é um mal necessário à evolução da espécie humana. De um lado uma minoria astuta, inteligente e dotada de uma sorte extraordinária, enriquecendo as custas de esforços alheios e trabalhando para espremer ainda mais a massa de derrotados. Do outro lado, uma grande maioria sofredora (não são apenas os corinthianos) que trabalha muito, sonha pouco, ganha menos ainda, não possui sorte alguma e esperança em demasia.

O grande defeito dos dominados é nunca perceber que são a maioria e que poderiam juntos mudar o curso da história. A grande sorte dos dominadores é contar com o defeito de seus dominados. Apesar de serem em número menor, os dominadores não temem a força dos dominados, pois sabem que estes são incapazes de fazer coisa alguma. Isso porque, cegos pelo desejo de se tornarem livres e por conseqüência dominadores, eles não enxergam uns aos outros e continuam isolados em suas masmorras de pobreza, enquanto os dominadores enriquecem cada vez mais com esses esforços inúteis dos dominados.

O funcionário exemplar que se ilude achando que mostrando proatividade, alta produção e dedicação total e absoluta ao trabalho irá um dia chegar a posição de chefe está simplesmente alimentando essa máquina autodestrutiva. Trabalhando tanto assim e cobrando tão pouco, é a alegria do patrão, um cachorrinho bem treinado sobrevivendo de caricias desprovidas de qualquer sentimentalidade.

Chefe feliz e estagnação no emprego. Enquanto o dominado se ilude achando que “um dia chegará lá” o dominador enche o cu de grana e celebra a burrice de seus empregados. Isso porque, se os escravos se unissem contra ele, ele sabe que seria derrotado.

E assim é desde que Adão e Eva primeiro pisaram nessa terra. Na Antiguidade, os escravos obedeciam aos reis e imperadores. Na Idade Média, os servos, aos senhores feudais, e na Idade Contemporânea, o proletário, aos patrões.

Antes o homem ainda alimentava uma esperança real de liberdade, sair do cativeiro e tirar as amarras de ferro. Hoje em dia, a escravidão é psicológica e financeira, barreiras muito mais difíceis de serem quebradas. Agora, o escravo, vulgo empregado, é servo das artimanhas psicológicas de seu patrão, e escravo de sua dívida no banco. Não podendo largar o emprego, e ver-se então em LIBERDADE, nem por um motivo ou pelo outro, se mantém na mesma situação por toda a sua vida, alimentando a falsa idéia de que um dia terá dinheiro o bastante para realizar seus sonhos, ser livre, senhor de si, deixar de ser dominado.

Ao se dar conta de que nunca será um dominador, o dominado prepara seu plano de previdência privada, alimentando um novo falso sonho, de se tornar milionário aos 65 anos de idade, depois de ter perdido toda a sua juventude, o crescimento de seus filhos e talvez até de seus netos nesse delírio sem sentido, na busca pelo dinheiro incalculável e o poder que dele poderia ser obtido.

Agora, de que vale 1 milhão de reais com 65 anos de idade? Me diz? Porque o banco tenta me vender isso? O que eles querem que eu faça até lá? Eu quero mais é torrar todo o meu salário com tudo o que me der na telha porque nunca se sabe quando um caminhão vai passar por cima dos meus miolos sem dó nem piedade e toda essa história de dominadores e dominados não fará mais diferença alguma.

Afinal, é só pra isso que a gente trabalha. Juntar dinheiro e gastar. Porque mudar de vida, pensando pequenininho assim, ninguém vai. E essas histórias de gente que começou vendendo limão e hoje é dono de empresa de televisão não passam de mais um conto da carochinha.

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