Janeiro, essa mulher infeliz – uma história de chá, transbordante
Janeiro é uma mulher infeliz. Quiçá mal comida. Ou bem mal comida. Faz um drama. Chora até não poder mais. Se esgoela, esbraveja, derrama todo seu desgosto sobre nossas cabeças. E haja paciência. E haja complacência pra aguentar tanto lamento. Lamúria sem ter fim. Tristeza que dura um mês inteiro. A vida fica cinza. Em diversos tons de cinza. Fica úmida também. Pés gelados. Mãos frias.
Lava a alma, Janeiro! Lava a alma. O problema é que a alma de São Paulo anda tão suja, que não há temporal de Janeiro que dê conta de limpar. E aí, sobra só a tristeza. Fecha a torneira do mundo, meu pai! Que assim a gente não consegue mais levar.
É olhar pela janela e enxergar a floresta tropical. Ah, como essa água que nunca cessa faz mais sentido agora. O que não faz sentido é a gente. Presos em nossos caixotes de cimento. Ilhados por nossos montes de piche. Atormentados por nossos delírios de fumaça. E ainda esperando que o milagre venha do céu.


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