Os botões dos outros - uma história de chá de sumiço
Eu ando muito a pé. Invariavelmente seguindo as mesmas rotas, caminhando nas mesmas calçadas, atravessando as mesmas ruas. Isso faz com que eu não preste mais muita atenção no trajeto, nem nas casas, nem nos muros. Entretanto, mesmo distraída, é fácil reparar nos detalhes que destoam da imagem que o cérebro estaria esperando enxergar.
E uma dessas coisas que frequentemente me chamam a atenção são peças de vestuário ainda em bom estado largadas na rua. Ontem vi um par de sandálias no canteiro de uma árvore. Semana passada, uma bermuda jeans feminina na calçada. Esses objetos não me chamam a atenção por seu estado de conservação ou localização insólita, mas porque imediatamente me fazem imaginar suas histórias. De quem eram, por que foram largados ali, por que exatamente naquele lugar.
A primeira versão é sempre a mais terrível. Crime. Assalto. Sequestro. Violação sexual. Depois tento atenuar. Tava muito bêbada. Tava muito loca. Brigou com o namorado, largou tudo ali e saiu correndo. Talvez a peça estivesse apenas incomodando, talvez a pessoa quisesse sentir o vento da liberdade soprando na pele desprotegida. Talvez tenha tido um surto psicótico e resolveu largar tudo para traz e começar uma nova vida.
Talvez. Tantas coisas e nenhuma. O fato é que esse pequeno pedaço de alguém, abandonado ali, sempre parece ter uma história. Não é o acaso. Algo aconteceu. E aquilo é o que restou. Ali está a memória. E eu que muito falo com meus botões, mas ainda pouco falo com os botões dos outros, fico aqui imaginando o aquela testemunha dos fatos, a única a que tenho acesso, poderia me contar.


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