Encapsulada – uma história de chá, em cápsulas
No terceiro milênio, a vida como a conhecemos se resume em cápsulas. Algumas maiores, outras menores, algumas para engolir, outras para ser engolido, mas basicamente, nosso cotidiano gira ao redor das cápsulas.
Primeiro as óbvias. Foi-se o tempo em que o homem caçava, cozinhava e lavava a louça para se alimentar. Hoje em dia, ele simplesmente ingere suplementos alimentares em forma de cápsulas. Vitaminas, proteínas aminoácidos, o que quer que você precise sempre pode conseguir, prontinho para consumo, em alguma cartela ou tubinho mágico adquirido na farmácia ou similar.
Encapsulados, não de forma tão radical como os comprimidos, estão também os alimentos congelados, enlatados, instantâneos, embalados a vácuo, pasteurizados ou em embalagem longa vida. Prontos para consumo, ou quando muito semiprontos para consumo, esses alimentos cuidadosamente acondicionados em invólucros plásticos são a solução alimentar de uma grande parte dos habitantes do planeta Terra.
Indo um pouco mais além, hoje em dia também trabalhamos encapsulados, hermeticamente fechados, conservados a uma temperatura artificial mantida com a ajuda do ar condicionado, passado os dias enjaulados em cápsulas de concreto, achando que contribuímos para o futuro da humanidade.
Ao voltar para casa, nos fechamos em nossas cápsulas, às vezes empilhadas umas sobre as outras, esperando o amanhecer de um novo dia encapsular. Para se divertir, nos trancamos em cápsulas escuras para ouvir música ou ver filmes de formatos encapsulados. Para nos mantermos saudáveis, freqüentamos cápsulas equipadas com ferramentas estranhas que nos permitem a prática controlada de exercícios. Correr ao ar livre é perigoso. Nadar no rio causa doenças e andar de bicicleta é suicídio.
Ao ligar a TV, assistimos a noticiários encapsulados, todos seguindo a mesma fórmula, utilizando a mesma composição química e apresentando os mesmos efeitos colaterais. Em época de eleições, ao escolher o novo candidato, estudamos a bula, verificamos as conseqüências em caso de superdosagem, mas sempre nos enganamos ao achar que a embalagem nova mudou a cápsula antiga e mais uma vez sofremos com os males da indigestão.
Felicidade também vem em cápsulas, basta apenas escolher a dose de alegria desejada. Assim como o sono, a fome, a energia, a disposição e um monte de outros sentimentos e sensações que até outro dia os seres humanos produziam naturalmente.
A vida moderna é assim. Vivida em cápsulas. E, entre escolher a cápsula vermelha ou a azul, eu prefiro apenas abdicar de todas elas e descobrir se ainda existe vida depois da tarja preta.


1 Comentários:
nada assim muito necessário, mas até pela falta de tempo dessa capsular existência, os seus textos poderiam vir em cápsula!
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